segunda-feira, 30 de junho de 2008

Clarabóia

Céu escuro tão estrelado que clareia
ofusca qualquer pensamento
somente uma contemplação muda e absoluta

terça-feira, 24 de junho de 2008

Agradecimento a A. de C.

Não consigo escrever
Não consigo falar, nem me fazer entender aos outros
Sempre quero dizer algo (não que esse algo seja algo importante
é simplesmente algo a ser dito
muito embora devêssemos escolher o silencio ao turbilhão de palavras.
estas geralmente soam torpes
ou, pelo contrário, o torpe seja quem as receba)
Sempre quero dizer algo
Mas esse algo não sai como algo
Sai como aquilo ou isto ou coisa
Nunca algo
Tento, tento, tento
Gasto mãos, dedos, folhas e tinta
Em vão
A maioria das palavras acabam em vãos
Vãos de sintaxe, lixeiras, esquecimentos
E depois, quando desisto de escrever o tão almejado algo,
Eis minha surpresa: já ele está escrito por outras mãos que não as minhas
O meu algo, decodificado em outro papel por outras mãos
Talvez não exatamente como gostaria de tê-lo escrito
Invariavelmente se encontra em melhores colocações
Em tudo mais, melhor
O algo afanado de meus pensamentos, escrito antes mesmo que eu o concebesse
Mas, ainda assim, meu algo
(já nem mais sei qual o sentido de meu, uma vez que, não partindo de mim, não me pertença.
Mas como poderia não me pertencer, se estava aqui?
Tenho como prova da minha propriedade sobre o algo
Muitos outros algos ameaçando minha sanidade)
Não consigo nem posso escrever
Jamais seria total minha sinceridade
Pensamentos não podem, simplesmente, ser resumidos em palavras
São incompatíveis
Não são feitos da mesma matéria
Quererão, por fim, materializar-se os pensamentos?
Algumas conversões custam-nos caros
Talvez aos pensamentos custe-lhes a essência
Outras mãos, entretanto, escreveram meus algos
Independente de quem seja o vil ladrão
Fez-me um favor:
Traduziu em palavras todas as irrealidades de minha alma

sábado, 21 de junho de 2008

Ser grande, é ser imortal
o máximo que eu consegui
foi morrer

sábado, 3 de maio de 2008

Confissão Sobre a Insanidade (ou Sobre a Verdade Desnuda) - prólogo


Já que farei uma confissão, em primeiro lugar, preciso confessar que irei confessar. Tal qual um Dante às avessas (saí do Paraíso para ir às profundezas do Inferno). Mas devo confessar que, ao decorrer de minha caminhada, de minha exaustiva caminhada, que me tem esgotado diariamente até a última das forças, tem-me feito sangrar até a última gota, percebi que, na realidade, efetivamente saía do Inferno; mas sem a confortável certeza de um dia chegar ao Paraíso. O mais perigoso do inferno é que, quando se está nele, tem-se a certeza de que se está no Paraíso; no Inferno, temos relativa paz. Agora, presa nos confins do Purgatório, não sei dizer se o paraíso existe, mas algo aparece em minha frente, ainda disforme, ainda irreconhecível. Posso ter andado em círculos e voltado ao inferno? Se voltei, será para avisar a todos que existe mais do que apenas o inferno. Se vão acreditar em mim ou me mandar para a primeira clínica psiquiátrica que encontrarem, eu não sei. Só tenho uma certeza: minha confissão não terminará por aqui. Apenas preciso de tinta e papel para prosseguir.


(texto escrito por Nemesis. Acesse
http://twisted-fury.blogspot.com para ler o Manifesto da Insanidade (ou da Verdade Desnuda))

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Tarde


Era uma sexta feira chuvosa e fria, um daqueles dias excelentes para se ficar em casa com uma caneca de leite quente vendo um bom Almodóvar. O leite havia acabado e caía muita água para ir a uma locadora. Então se contentou com o filme da televisão (devia tê-lo visto pelo menos umas 3 vezes) e um suco de mamão com laranja de saquinho (odiava esse tipo de alimento industrializado). Viu o filme sobre uma família que se perde na selva (?) com a mesma atenção dispensada ao jornal que nem viu começar. Ouviu algo como uma enchente em algum lugar do planeta, não sabia nem o país. Nem tentou descobrir onde era. Também não se importou com o escândalo político de algum deputado corrupto nem com o caso de uma atriz norte-americana presa por dirigir alcoolizada. Não se importava com muita coisa ultimamente. Desligou a televisão, que não lhe interessava em nada. Estava perdido, o pensamento longe. Tinha antes tantas teorias, mas nos últimos tempos não conseguia mais ter certeza de nada. Não tinha certeza de nada, mas ainda assim pensava em muitas coisas. E justamente por não ter mais certeza, conseguia ver muitos outros lados que antes lhe eram obscuros, ofuscados pela claridade da certeza. Tentou sentar-se e escrever algo, despejar um pouco daquele muito de idéias que fervilhavam em sua cabeça. Queria escrever, mas não conseguia. As idéias se perdiam em algum ponto do caminho entre a cabeça e as mãos. A bic azul não conseguia delimitar as palavras que desciam pelas fibras nervosas desde o córtex pré-frontal pelo plexo braquial até a mão e os dedos. A bic azul não tinha nada a ver com essa incapacidade de expressão. Desistiu de escrever. Largou a caneta, amassou a folha branca de papel que seria seu rascunho e atirou-a no lixo. Abriu a janela do quarto e percebeu que já não mais chovia. O céu transmutara-se em um rosa acinzentado, “lindo”. Sentou-se mais uma vez, mas novamente as palavras fugiram-lhe. Não lhe eram tão afáveis no papel quanto lhes eram nos pensamentos. Resolveu deixá-las onde prefiriam quedar-se. Ligou novamente a televisão e, mais uma vez, perdeu-se em pensamentos, longe da novela das 8.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Solilóquio


Já aconteceu de você não ver passar um dia?
parece que ele não existiu
que foi sonho, que foi imaginação, que não foi
que nada do que foi, foi, embora tenha sido
agora mesmo, parece que é de mentira
como um estado de torpor...
vejo as coisas acontecendo, faço as coisas, mas parece que só to imaginando
parece de mentira
depois vejo que foi tudo de verdade, que foi sério
como se eu assistisse a uma guerra em um filme
uma guerra onde eu mesma sou personagem, por vezes central
do bem, do mal
e só depois eu me desse conta que foi de verdade
que teve morte e gente machucada...
mas parecia que eu só tava assistindo de longe
minha vida tem sido assim
mas é estranho
parece que não é nada sério
e então parece sério demais
não tem meio termo: ou é tudo brincadeira ou é tudo trágico
eu ainda não descobri como sair disso
e assim tenho vivido toda minha vida
só que de uns tempos pra cá parece que to percebendo mais
sentindo mais
sofrendo mais
ultimamente não consigo ver finais...
muito menos felizes
e ainda assim, não parece de verdade...
talvez não seja mesmo
só uma grande e elaborada brincadeira

domingo, 20 de abril de 2008

A palo seco


O cansaço pesando-lhe como pedra no estômago. A fumaça tóxica do cigarro entrando e saindo dos pulmões sem, contudo, levar um pelo menos um fragmento daquele peso que, do estômago, já havia se espalhado para os braços, pernas, olhos e vontade própria. Uma pedra grande e pesada sufocando sua vontade. Nem sabia mais de que. Queria, mas não sabia mais o motivo daquele querer. Um quase querer esmagado pelo peso da realidade que ele nem via mais. Ou talvez visse, mas não conseguia mais distinguir o que era verdade e o que não era, tão obliterado estava por sua melancolia. Melancolia essa sempre presente, tanto que se sentia ausente de si mesmo. De si e de tudo que o cercava. Ultimamente, a ausência tinha sido peça chave, presença marcante em sua vida ausente de vida. Já se acostumara com a solidão. Tanto, que essa era sua maior companheira. E, por mais que se apiedasse de si mesmo e tentasse se culpar de todas as maneiras possíveis...
Chegou em casa e sentiu medo. Medo de ter perdido o pouco que restava, e não restava muito. Na verdade, não restava nada. Mas o nada tinha sido seu companheiro desde que. Não se lembrava mais desde quando. A estranha presença do nada ecoando, fazendo barulho. Já havia se acostumado com, embora ainda doesse. Uma dor regada cuidadosamente. No fundo, ele gostava da dor.