domingo, 20 de abril de 2008

A palo seco


O cansaço pesando-lhe como pedra no estômago. A fumaça tóxica do cigarro entrando e saindo dos pulmões sem, contudo, levar um pelo menos um fragmento daquele peso que, do estômago, já havia se espalhado para os braços, pernas, olhos e vontade própria. Uma pedra grande e pesada sufocando sua vontade. Nem sabia mais de que. Queria, mas não sabia mais o motivo daquele querer. Um quase querer esmagado pelo peso da realidade que ele nem via mais. Ou talvez visse, mas não conseguia mais distinguir o que era verdade e o que não era, tão obliterado estava por sua melancolia. Melancolia essa sempre presente, tanto que se sentia ausente de si mesmo. De si e de tudo que o cercava. Ultimamente, a ausência tinha sido peça chave, presença marcante em sua vida ausente de vida. Já se acostumara com a solidão. Tanto, que essa era sua maior companheira. E, por mais que se apiedasse de si mesmo e tentasse se culpar de todas as maneiras possíveis...
Chegou em casa e sentiu medo. Medo de ter perdido o pouco que restava, e não restava muito. Na verdade, não restava nada. Mas o nada tinha sido seu companheiro desde que. Não se lembrava mais desde quando. A estranha presença do nada ecoando, fazendo barulho. Já havia se acostumado com, embora ainda doesse. Uma dor regada cuidadosamente. No fundo, ele gostava da dor.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Gaiola


As coisas eram estranhas. Tantos sentimentos confusos e contraditórios ao mesmo tempo. Uma revoada de todos os pássaros na mesma pequena gaiola.
Tristeza lamacenta, felicidade eufórica, depressão avassaladrora, angústia corrosiva, tranquilidade irritante, risada incontrolável, choro mais incontrolável ainda. E tudo completamente incoercível.Completamente intrigante, completamente vivo. Não sabia nunca o porque de cada sentimento, mas eles estavam todos ali, alternando-se num ciclo aleatório, insensato. Indescritível.
Algumas vezes, somente o vazio, escuro, frio, arrepiante. Outras, só o coração batendo forte, tão forte que chegava a machucar. Batia e batia doído, preso por cordoalhas tendinosas e algum sentimento que ela não conseguia entender. A água acumulando-se nos olhos, borrando a vista, distorcendo as palavras, molhando o rosto, escorrendo a maquilagem, salgando a alma e aliviando a boca, que não sabia mais formar palavras, só sabia amargar a dor das lágrimas e do músculo pulsátil preso ao peito.
Só sentia.E esperava que a gaiola suportasse tantas asas.