terça-feira, 22 de julho de 2008

Interlúdio

(Entre a existência e a derradeira passagem, somente um simples e breve interlúdio)

Não temo a morte, nem devo temê-la. O que dói não é ver a morte invadindo a órbita onde antes se encontrava tanta vida. O que dói é ver a dor e o sofrimento, o fracasso. Alguém que tinha tudo pra ser tudo, e se resume a, simplesmente, nada, ou pior, resume-se a uma dor e sofrimento que apenas se estão no preâmbulo. A angústia da morte é muito mais intensa quanto mais essa se delonga em se apoderar de sua vítima. Lenta, corrosiva, implacável. A morte arrastando-se em forma de câncer, tecendo, como uma grande e impreterível aranha sua teia.
Ó morte, cria eu ser tu muito mais piedosa! Arrebata-lho, de uma vez e sempre, a vida. Leva-lhe contigo, de uma vez e sempre. Acaba, tu, com tudo e fecha, de uma vez e sempre, essa úlcera, ferida aberta em meu peito. Cessa, tu, esse impúdico cortejo e toma-lhe, de uma vez e sempre, o que é teu de direito.
Ó morte, mais viva que nunca, tu jazes em meu peito.
Que queres tu com tanta dor?
Deve haver algum sentido. Tem que haver.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Morangos Mofados

Prelúdio
No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo — e queria? Enumerava frases como é-assimqile-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas lTttsafinalque.importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto dernorangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

CAIO FERNANDO ABREU