sábado, 3 de maio de 2008

Confissão Sobre a Insanidade (ou Sobre a Verdade Desnuda) - prólogo


Já que farei uma confissão, em primeiro lugar, preciso confessar que irei confessar. Tal qual um Dante às avessas (saí do Paraíso para ir às profundezas do Inferno). Mas devo confessar que, ao decorrer de minha caminhada, de minha exaustiva caminhada, que me tem esgotado diariamente até a última das forças, tem-me feito sangrar até a última gota, percebi que, na realidade, efetivamente saía do Inferno; mas sem a confortável certeza de um dia chegar ao Paraíso. O mais perigoso do inferno é que, quando se está nele, tem-se a certeza de que se está no Paraíso; no Inferno, temos relativa paz. Agora, presa nos confins do Purgatório, não sei dizer se o paraíso existe, mas algo aparece em minha frente, ainda disforme, ainda irreconhecível. Posso ter andado em círculos e voltado ao inferno? Se voltei, será para avisar a todos que existe mais do que apenas o inferno. Se vão acreditar em mim ou me mandar para a primeira clínica psiquiátrica que encontrarem, eu não sei. Só tenho uma certeza: minha confissão não terminará por aqui. Apenas preciso de tinta e papel para prosseguir.


(texto escrito por Nemesis. Acesse
http://twisted-fury.blogspot.com para ler o Manifesto da Insanidade (ou da Verdade Desnuda))

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Tarde


Era uma sexta feira chuvosa e fria, um daqueles dias excelentes para se ficar em casa com uma caneca de leite quente vendo um bom Almodóvar. O leite havia acabado e caía muita água para ir a uma locadora. Então se contentou com o filme da televisão (devia tê-lo visto pelo menos umas 3 vezes) e um suco de mamão com laranja de saquinho (odiava esse tipo de alimento industrializado). Viu o filme sobre uma família que se perde na selva (?) com a mesma atenção dispensada ao jornal que nem viu começar. Ouviu algo como uma enchente em algum lugar do planeta, não sabia nem o país. Nem tentou descobrir onde era. Também não se importou com o escândalo político de algum deputado corrupto nem com o caso de uma atriz norte-americana presa por dirigir alcoolizada. Não se importava com muita coisa ultimamente. Desligou a televisão, que não lhe interessava em nada. Estava perdido, o pensamento longe. Tinha antes tantas teorias, mas nos últimos tempos não conseguia mais ter certeza de nada. Não tinha certeza de nada, mas ainda assim pensava em muitas coisas. E justamente por não ter mais certeza, conseguia ver muitos outros lados que antes lhe eram obscuros, ofuscados pela claridade da certeza. Tentou sentar-se e escrever algo, despejar um pouco daquele muito de idéias que fervilhavam em sua cabeça. Queria escrever, mas não conseguia. As idéias se perdiam em algum ponto do caminho entre a cabeça e as mãos. A bic azul não conseguia delimitar as palavras que desciam pelas fibras nervosas desde o córtex pré-frontal pelo plexo braquial até a mão e os dedos. A bic azul não tinha nada a ver com essa incapacidade de expressão. Desistiu de escrever. Largou a caneta, amassou a folha branca de papel que seria seu rascunho e atirou-a no lixo. Abriu a janela do quarto e percebeu que já não mais chovia. O céu transmutara-se em um rosa acinzentado, “lindo”. Sentou-se mais uma vez, mas novamente as palavras fugiram-lhe. Não lhe eram tão afáveis no papel quanto lhes eram nos pensamentos. Resolveu deixá-las onde prefiriam quedar-se. Ligou novamente a televisão e, mais uma vez, perdeu-se em pensamentos, longe da novela das 8.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Solilóquio


Já aconteceu de você não ver passar um dia?
parece que ele não existiu
que foi sonho, que foi imaginação, que não foi
que nada do que foi, foi, embora tenha sido
agora mesmo, parece que é de mentira
como um estado de torpor...
vejo as coisas acontecendo, faço as coisas, mas parece que só to imaginando
parece de mentira
depois vejo que foi tudo de verdade, que foi sério
como se eu assistisse a uma guerra em um filme
uma guerra onde eu mesma sou personagem, por vezes central
do bem, do mal
e só depois eu me desse conta que foi de verdade
que teve morte e gente machucada...
mas parecia que eu só tava assistindo de longe
minha vida tem sido assim
mas é estranho
parece que não é nada sério
e então parece sério demais
não tem meio termo: ou é tudo brincadeira ou é tudo trágico
eu ainda não descobri como sair disso
e assim tenho vivido toda minha vida
só que de uns tempos pra cá parece que to percebendo mais
sentindo mais
sofrendo mais
ultimamente não consigo ver finais...
muito menos felizes
e ainda assim, não parece de verdade...
talvez não seja mesmo
só uma grande e elaborada brincadeira