
Era uma sexta feira chuvosa e fria, um daqueles dias excelentes para se ficar em casa com uma caneca de leite quente vendo um bom Almodóvar. O leite havia acabado e caía muita água para ir a uma locadora. Então se contentou com o filme da televisão (devia tê-lo visto pelo menos umas 3 vezes) e um suco de mamão com laranja de saquinho (odiava esse tipo de alimento industrializado). Viu o filme sobre uma família que se perde na selva (?) com a mesma atenção dispensada ao jornal que nem viu começar. Ouviu algo como uma enchente em algum lugar do planeta, não sabia nem o país. Nem tentou descobrir onde era. Também não se importou com o escândalo político de algum deputado corrupto nem com o caso de uma atriz norte-americana presa por dirigir alcoolizada. Não se importava com muita coisa ultimamente. Desligou a televisão, que não lhe interessava em nada. Estava perdido, o pensamento longe. Tinha antes tantas teorias, mas nos últimos tempos não conseguia mais ter certeza de nada. Não tinha certeza de nada, mas ainda assim pensava em muitas coisas. E justamente por não ter mais certeza, conseguia ver muitos outros lados que antes lhe eram obscuros, ofuscados pela claridade da certeza. Tentou sentar-se e escrever algo, despejar um pouco daquele muito de idéias que fervilhavam em sua cabeça. Queria escrever, mas não conseguia. As idéias se perdiam em algum ponto do caminho entre a cabeça e as mãos. A bic azul não conseguia delimitar as palavras que desciam pelas fibras nervosas desde o córtex pré-frontal pelo plexo braquial até a mão e os dedos. A bic azul não tinha nada a ver com essa incapacidade de expressão. Desistiu de escrever. Largou a caneta, amassou a folha branca de papel que seria seu rascunho e atirou-a no lixo. Abriu a janela do quarto e percebeu que já não mais chovia. O céu transmutara-se em um rosa acinzentado, “lindo”. Sentou-se mais uma vez, mas novamente as palavras fugiram-lhe. Não lhe eram tão afáveis no papel quanto lhes eram nos pensamentos. Resolveu deixá-las onde prefiriam quedar-se. Ligou novamente a televisão e, mais uma vez, perdeu-se em pensamentos, longe da novela das 8.
2 comentários:
eu vi a tarde rosa!
acho q o caos está se aproveitando da minha nobreza... =P
"... e desperdiçaram a juventude nos jovens..."
meta para 2008: "eu quero a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida..."
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