Queria escrever alguma coisa, mas não sei o que. Sabe quando você sente uma necessidade de se expressar de algum modo, as idéias estão fervilhando na mente, mas elas não podem ser conduzidas até a boca ou os dedos. Elas se perdem em algum momento no meio do caminho, mais ou menos entre os olhos e o nariz. Talvez as idéias saiam somente através das lágrimas (ou de secreção nasal, que, no meu ponto de vista, é bem menos poético). É, bem melhor que saia pelas lágrimas mesmo. As lágrimas realmente são a vazão da alma. E vazão no sentido literal da palavra. É a liquidificação dos sentimentos não expressos, sufocados, inrustidos. E é isso que sou: um amontoado de sensações inrustidas, que não podem ser expressas. Sentimentos foram feitos para serem sentidos, não para ser falados ou escritos, senão seriam apenas palavras. E palavras podem ser ditsa ou escritas, mas não podem ser sentidas. Quem já sentiu um guarda-chuva ou uma bicicleta? Tá, tudo bem, podemos ter sentido a matéria tocando nosso corpo, mas não sei como é a sensação guarda-chuva. Deve ser meio molhada, nos dias de chuva. E uma sensação bicicleta deve ser meio rodante, nos dias de sol. Toda vez que eu disser, ou escrever, whathever, guarda-chuva ou bicicleta, você vai saber do que se trata. Mas quando eu escrever solidão ou tristeza, você pode ter uma idéia do que seja, mas nunca vai entender como me sinto. E por mais que eu tente te explicar, o que eu quero dizer não vai passar de uma vaga idéia, uma sombra da realidade, como são as sombras de Platão. Talvez as sombras de Platão signifiquem somente os sentimentos não expressos em sua filosofia. Ninguém consegue escrever uma sensação. OK, você pode me citar Shakespeare, mas nem ele escreveu um sentimentozinho que seja, ele os provocou no leitor, o que é bem diferente, pois a tristeza ou a paixão que ele despertou em mim pode (e é) diferente das que ele despertou em você.
(O mais legal é que "eu" e você" somos somente eu. Mas gosto disso).
Bom, o que eu quero com tudo isso? Nada. Na verdade só queria uma explicação racional por eu nunca conseguir escrever sobre mim e meus sentimentos. Incrível (e explêndido!) como conseguimos racionalizar com proposições lógicas tudo que pensamos. Agora, imersa no "calor da batalha", conseguiria te convencer de qualquer coisa. Duvida? Experimenta duvidar. Posso te mostrar, com a mesma paixão e veracidade, que Hitler estava certo, e que estava errado. Ou então que sim, os deuses eram astronautas, ou então que não, não existem seres extraterráqueos. Agora posso muita coisa, mas só aqui, quietinha, em frente ao meu computador, escutando uma banda argentina extinta em 1997 e pensando muitas coisas completamente inúteis (tanto quanto esse monte de palavrs idiotas).
A única coisa que não consigo é mostrar prs pessoas quem eu realmente sou. Talvez porque eu mesma não saiba a resposta dessa questão. A única coisa que eu sei, hoje, é que não tenho a mínima idéia de nada e que somente as baratas resistiriam a uma explosão nuclear em escala mundial (embora elas não resistam a um vigoroso pisão).
Queria escrever algo sobre o quanto ninguém se conhece ao certo, de o quanto somos máscaras atrás de máscaras, que, mesmo retiradas uma a uma, nunca chegam a uma face mestra, porque ela não existe. Queria escrever aqui meu nome, mas nõ consigo. Talvez devesse ser chamada de (plagiando o diabo) legião, porque somos muitos e muitas.
(Falei que queria escrever, mas não sabia o quê. Estava certa e sincera desde o começo).
2 comentários:
Belíssimo texto, fico assombrado com tamanho lirismo, ainda mais, me perdoe, vindo de uma médica, ainda que haja poesia em salvar vidas. Mais uma vez, entre tantas, venho até aqui, para ver como estás, e mais uma vez me assombro sobre a dimensão aqui representada e o sincronismo que as vezes expressamos. O que há efetivamente em conhecer alguém? O que há na máxima: "conhece-te a si mesmo" de singelo que não traduz ao próximo. Fiquei pensando em platão enquanto lia teu texto, apenas para ve-lo citado por ti logo adiante. São sempre em textos como esse, que sinto saudades de falar contigo, e mais uma vez, me vejo em baudelaire "a doce melancolia do que nunca se sucedeu". Ainda te estimo muito, e sinto falta de tua escrita de forma mais direcional, temo que a distancia que se firmou, veio justamente de seu elemento contrário, daqueles por trás da máscara, nossa proximidade. Acho que ambos, temos uma noção íntima do outro, que em muitas escalas, se torna assustador, mas sempre tento lutar contra isso. Afinal sou mais uma essência em tua legião, um fantasma moderno sempre a contemplar, mas cujo o toque é negado. Saudades.
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