sexta-feira, 22 de agosto de 2008

memórias

Parece que foi há tanto tempo
um tempo tão longe, tão distante, que algumas vezes até parece que foi com outra pessoa
ou que nunca existiu
ou que foi fantasia
olho fotos nem tão antigas e não me encontro
minha face estampada em um filme fotográfico
sim! reconheço os olhos, o sorriso
mas não eu
não pode ser
não me recordo
lembro-me vagamente, como se alguém tivesse me contado
uma outra pessoa, talvez conhecida
enigma, incógnita
muito do que foi talvez nunca tenha sido, senão somente imaginação
e muito do que se foi perdeu-se nas entrelinhas da memória, chega a não-ser
...
não, definitivamente não foi

sábado, 2 de agosto de 2008

teorias

até ontem havia milhões de teorias, todas imaculadas, perfeitas
hoje, sem mais nem menos, todas sumiram, desapareceram, caíram no oco do erro, da culpa e da certeza de, por mais que se tente, algumas atitudes não se mudam, por mais que sejam sufocadas por camadas e mais camadas da tinta de ilusão

(03 de agosto de 2008
o post do dia 02, cheio de confabulações majestosas esvaiu-se, inexplicavelmente
muito a propósito, resolvi utilzar-me do espaço remanescente)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Interlúdio

(Entre a existência e a derradeira passagem, somente um simples e breve interlúdio)

Não temo a morte, nem devo temê-la. O que dói não é ver a morte invadindo a órbita onde antes se encontrava tanta vida. O que dói é ver a dor e o sofrimento, o fracasso. Alguém que tinha tudo pra ser tudo, e se resume a, simplesmente, nada, ou pior, resume-se a uma dor e sofrimento que apenas se estão no preâmbulo. A angústia da morte é muito mais intensa quanto mais essa se delonga em se apoderar de sua vítima. Lenta, corrosiva, implacável. A morte arrastando-se em forma de câncer, tecendo, como uma grande e impreterível aranha sua teia.
Ó morte, cria eu ser tu muito mais piedosa! Arrebata-lho, de uma vez e sempre, a vida. Leva-lhe contigo, de uma vez e sempre. Acaba, tu, com tudo e fecha, de uma vez e sempre, essa úlcera, ferida aberta em meu peito. Cessa, tu, esse impúdico cortejo e toma-lhe, de uma vez e sempre, o que é teu de direito.
Ó morte, mais viva que nunca, tu jazes em meu peito.
Que queres tu com tanta dor?
Deve haver algum sentido. Tem que haver.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Morangos Mofados

Prelúdio
No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo — e queria? Enumerava frases como é-assimqile-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas lTttsafinalque.importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto dernorangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

CAIO FERNANDO ABREU

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Clarabóia

Céu escuro tão estrelado que clareia
ofusca qualquer pensamento
somente uma contemplação muda e absoluta

terça-feira, 24 de junho de 2008

Agradecimento a A. de C.

Não consigo escrever
Não consigo falar, nem me fazer entender aos outros
Sempre quero dizer algo (não que esse algo seja algo importante
é simplesmente algo a ser dito
muito embora devêssemos escolher o silencio ao turbilhão de palavras.
estas geralmente soam torpes
ou, pelo contrário, o torpe seja quem as receba)
Sempre quero dizer algo
Mas esse algo não sai como algo
Sai como aquilo ou isto ou coisa
Nunca algo
Tento, tento, tento
Gasto mãos, dedos, folhas e tinta
Em vão
A maioria das palavras acabam em vãos
Vãos de sintaxe, lixeiras, esquecimentos
E depois, quando desisto de escrever o tão almejado algo,
Eis minha surpresa: já ele está escrito por outras mãos que não as minhas
O meu algo, decodificado em outro papel por outras mãos
Talvez não exatamente como gostaria de tê-lo escrito
Invariavelmente se encontra em melhores colocações
Em tudo mais, melhor
O algo afanado de meus pensamentos, escrito antes mesmo que eu o concebesse
Mas, ainda assim, meu algo
(já nem mais sei qual o sentido de meu, uma vez que, não partindo de mim, não me pertença.
Mas como poderia não me pertencer, se estava aqui?
Tenho como prova da minha propriedade sobre o algo
Muitos outros algos ameaçando minha sanidade)
Não consigo nem posso escrever
Jamais seria total minha sinceridade
Pensamentos não podem, simplesmente, ser resumidos em palavras
São incompatíveis
Não são feitos da mesma matéria
Quererão, por fim, materializar-se os pensamentos?
Algumas conversões custam-nos caros
Talvez aos pensamentos custe-lhes a essência
Outras mãos, entretanto, escreveram meus algos
Independente de quem seja o vil ladrão
Fez-me um favor:
Traduziu em palavras todas as irrealidades de minha alma

sábado, 21 de junho de 2008

Ser grande, é ser imortal
o máximo que eu consegui
foi morrer